Vocês já pararam para pensar o quanto poderia ser macabro se divertir em um cemitério. Pois bem, este adjetivo está longe de servir ao passeio feito no Cemitério de la Recoleta, em Buenos Aires. O local é um dos pontos turísticos mais visitados da capital argentina. E há ali até mesmo visitas guiadas, a exemplo do que ocorre no Cemitério Père-Lachaise, em Paris, ou no Cemitério da Consolação, em São Paulo.

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Ambos são considerados verdadeiros museus a céu aberto porque têm excelentes obras de artes, de artistas renomados ou não. No passeio feio entre as sepulturas é possível perceber a riqueza de detalhes nas esculturas, nas portas e nas grades que guardam restos mortais de pessoas comuns e de grandes personalidades do país.

No Cemitério de la Recoleta, por exemplo, estão enterrados ex-presidentes, como Domingo Faustino Sarmiento, que governou o país entre 1874-1878, e Hipólito Yrigoyen, à frente do país por duas vezes; além de Remedios Escalada de San Martin, esposa do general San Martin, grande responsável pela independência da Argentina e de outros países da América do Sul.

Mas a maior “estrela” do cemitério é sem dúvida Eva (Evita) Duarte Perón, considerada a grande defensora dos trabalhadores. As pessoas chegam ao cemitério já perguntado para que lado fica o túmulo da família Perón. Eu acho engraçado as pessoas desejarem fazer fotos em frente a cripta. E isso é muito comum. E, ao meu ver, nem é uma das sepulturas mais bonitas.

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Mas Evita à parte, o Cemitério de la Recoleta, que leve esse nome por causa do bairro onde está localizado, um dos mais bem estruturados e nobres da cidade, nos conquista especialmente pelas esculturas maravilhosas que ladeiam os túmulos. A cidade de Mármore, como eu chamo, que faz o local ser ainda mais frio, mesmo em dias de sol, tem anjos, santos, imagens de Cristo, e outras infinitas obras; algumas delas bem significativas que contam um pouco das lendas e histórias que envolvem o cemitério.

Uma delas é a de uma jovem segurando a maçaneta da porta da cripta. A imagem representa a jovem Rufina Cambaceres, que fora sepultada ali, um dia depois do seu aniversário. Segundo contam, ela não teria morrido, mas sim sofrido do mal de catalepsia, e na noite após seu sepultamento teria acordado e tentado fugir do confinamento. Os funcionários do cemitério encontraram no dia seguinte o caixão aberto e marcas de arranhões na parte de dentro da porta, como se alguém tivesse tentado fugir do local, afastando a hipótese de roubo. Então a família encomendou a escultura da menina segurando a maçaneta como se quiser entrar e sair do local a qualquer hora. Fala-se que o espírito da jovem ronda o cemitério.

Outra história é a do coveiro David Alleno. Ele trabalhava no local e desejava ser enterrado ali. Mas o cemitério só recebia pessoas da alta sociedade, que tinham condições financeiras para manter uma sepultura no local. Com o salário que ganhava, as possibilidades do seu desejo ser atendido eram difíceis. Mas ele trabalhou muito para economizar dinheiro. Em 1910, quando conseguiu juntar o valor suficiente, viajou com seu irmão para a Itália onde encomendou a lápide com a sua escultura. O mais interessante e macabro é que ele mandou talhar na lápide o ano da sua morte, aquele ano de 1910. Retornando a Buenos Aires, ele pediu demissão e foi para casa, onde cometeu suicídio com um tiro a queima-roupa. Loucura, né?

O Cemitério da Recoleta talvez tenha um dos metros quadrados mais caros de Buenos Aires. Fica ao lado da Basílica Nuestra Señora del Pilar e de um conjunto de praças onde aos finais de semana ocorre uma feirinha popular. Na mesma região ficam o Centro Cultural da Recoleta e o Museu Nacional de Belas Artes.

Ah. Meu lugar favorito naquele cemitério é um banquinho que fica no fundo da via que dá acesso ao corredor da cripta da Evita, sob duas grandes árvores que não sei dizer qual a espécie.

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O Cemitério de La Recoleta é aberto ao público todos os dias das 8h às 18h. A entrada é franca.

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